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Apontamento
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada(*) descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem(**) com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes d'elles(***).

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à(****) criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.(*****)
Mi alma se partió como un jarrón vacio.
Cayó por la escalera excesívamente abajo.
Cayó de las manos de la criada descuidada.
Cayó, se hizo en más pedazos de la loza que había en el jarrón.

Burra? Imposible? Qué se yo!
Tengo más sensaciones de las que tenía cuando me sentía yo.
Soy una dispersión de astillas sobre un tapete por sacudir.

Hice barullo en la caida como un jarrón que se partía.
Los dioses que hay se lanzan de bruces del antepecho de la escalera.
Y miran las astillas que la criada de ellas hizo de mí.

No se enojen con ella.
Sean tolerantes con ella.
Qué era yo en un jarrón vacio?

Miran las astillas absúrdamente conscientes,
Pero conscientes de sí mismas, no conscientes de ellas.

Miran y sonrien.
Sonrien tolerantes a la criada involuntaria.

Tapa la gran escalera(*v*) alfombrada de estrellas.
Una astilla brilla, transformada del exterior lustroso, entre los astros.
Mi obra? Mi alma principal? Mi vida?
Una astilla.
Y los dioses la miran especiálmente, pues no saben porqué quedó ahí.
Presença, 20, Coimbra, Abril-Maio, 1929
Álvaro De Campos
1929

(*) N.d.E: Em algumas das versões que vejo na rede diz «creada» e não «criada» (em particular na versão do Camões); deixo a derradeira pelo estar ela no dicionario e não a outra.
(**) Na Presença: «zanguem», que parece gralha.
(***) N.d.E: Cá também vejo diversas versões, em algumas diz «deles»
(****) Na Presença: «a creada», sem acento.
(*****) Na Presença: sem ponto final.
(*v*) N.d.T: En português existen los vocablos escada y escadaria; ambos encuentran su traducción al castellano como escalera, pero el primero corresponde a un sólo tramo de ella; y el segundo a una sucesión de tramos con sus respectivos descansos.

©2003-07-20 by Sebastián Santisi, all rights reserved.
Revision: 3/2/2005.


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