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Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
El poeta es un fingidor.
Finge tan completamente
Que llega a fingir que es dolor
El dolor que de veras siente.

Y los que leen lo que escribe,
En el dolor leido sienten bien,
No las dudas que él tuvo,
Mas sólo la que ellos no tienen.

Y así en las canaletas de la rueda
Gira, entreteniendo la razón,
Ese comboy de cuerda
Que se llama corazón.
Publicado in Presença, n.º 36, Novembro de 1932.
Fernando Pessoa
01-04-1931

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Revision: 3/2/2005.


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