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Ontem O Pregador
Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer.
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse faze-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!

Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais
Para qual fui injusto – eu, que as vou comer a ambas?

Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.

Para mim, graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;
Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.
Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.
Ayer el pregonero de verdades de él
Habló otra vez conmigo.
Habló del sufrimiento de las clases que trabajan
(No del de las personas que sufren, que es al final quien sufre).
Habló de la injusticia de que unos tengan dinero,
Y de que otros tengan hambre, que no sé si es hambre de comer.
O si es sólo hambre de la sobremesa ajena.
Habló de todo cuando pudiese hacerlo afligir.

¡Qué feliz debe ser quien puede pensar en la infelicidad de los otros!
¡Qué estúpido si no sabe que la infelicidad de los otros es de ellos,
Y no se cura por fuera,
Porque sufrir no es tener falta de tinta
O el cajón no tener aros de hierro!

Haber injusticia es como haber muerte.
Yo nunca daría un paso para alterar
Aquello que llaman la injusticia del mundo.
Mil pasos que diera para eso
Sería sólo mil pasos.
Acepto la injusticia como acepto que una piedrra no sea redonda,
Y un sobreiro(*) no haber nacido pino o roble.

Corté la naranja en dos, y las dos partes no podían quedar iguales
¿Para cuál fui injusto – yo, que las voy a comer a ambas?

Tú, místico, ves un significado en todas las cosas.
Para tí todo tiene un sentido vedado.
Hay una cosa oculta en cada cosa que ves.
Lo que ves, lo ves siempre para ver otra cosa.

Para mí, gracias a tener ojos sólo para ver,
Yo veo ausencia de significado en todas las cosas;
Véolo y ámome, porque ser una cosa es no significar nada.
Ser una cosa es no ser suceptible de interpretación.
Poemas Inconjuntos
Alberto Caeiro
12-4-1919

(*) N.d.T: No sé qué arbol sea en castellano, "Árvore da família das fagáceas (Quercus suber), natural da região mediterrânea e aí muito cultivada para a extração de cortiça. Tem folhas lobadas, flores pequenas em amento, casca grossa e mole, retirada cada 9 ou 10 anos para, depois de seca, ser enviada às fábricas.".

©2004-12-13 by Sebastián Santisi, all rights reserved.


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