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Primeiro Prenúncio
Primeiro prenúncio de trovoada de depois de amanhã.
As primeiras nuvens, brancas, pairam baixas no céu mortiço,
Da trovoada de depois de amanhã?
Tenho a certeza, mas a certeza é mentira.
Ter certeza é não estar vendo.
Depois de amanhã não há.
O que há é isto:
Um céu de azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte,
Com um retoque de sujo embaixo como se viesse negro depois.
Isto é o que hoje é,
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo.
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?
Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã
Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido.
Bem sei que a trovoada não cai da minha vista,
Mas se eu não estiver no mundo.
O mundo será diferente —
Haverá eu a menos —
E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada.
Primer prenuncio de la tronada de pasado mañana.
¿Las primeras nubes, blancas, adelantan bajas en el cielo moribundo,
De la tronada de pasado mañana?
Tengo la certeza, pero la certeza es mentira.
Tener certeza es no estar viendo.
Pasado mañana no hay.
Lo que hay es esto:
Un cielo azul, un poco bazo, unas nubes blancas en el horizonte,
Con un retoque de sucio en bajo como si viniese negro después.
Esto es lo que hoy es,
Y, como hoy por el momento es todo, esto es todo.
¿Quién sabe si yo estaré muerto pasado mañana?
Si yo estuviera muerto pasado mañana, la tronada de pasado mañana
Será otra tronada de la que sería si yo no hubiera muerto.
Bien sé que la tronada no cae de mi vista,
Pero si yo no estuviera en el mundo.
El mundo sería diferente —
Habra menos yo —
Y la tronada caerá en un modo diferente y no será la misma tronada.
Poemas Inconjuntos
Alberto Caeiro
10-7-1930

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