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O Que Nós Vemos
O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir ?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Lo que vemos de las cosas son las cosas.
¿Por qué veríamos una cosa si hubiera otra?
¿Por qué es que ver y oir sería eludirnos
Si ver y oir son ver y oir?

Lo esencial es saber ver,
Saber sin estar pensando,
Saber ver cuando se ve,
Y ni pensar cuando se ve,
Ni ver cuando se piensa.

Pero eso (¡tristes de nosotros que traemos el alma vestida!),
Eso exige un estudio profundo,
Un aprendizaje de desaprender
Y un secuestro en la libertad de aquel convento
De que los poetas dicen que las estrellas son las monjas eternas
Y las flores las penitentes convictas de un sólo día,
Pero donde al final las estrellas no son sino estrellas
Ni las flores sino flores,
Siendo por eso que les llamamos estrellas y flores.
O Guardador De Rebanhos
Alberto Caeiro
08-03-1914

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