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Hoje Que Estou Só E Posso Ver
Bem, hoje que estou só e posso ver
      Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser,
      Quanto se o for, serei em vão,

Hoje, vou confessar, quero sentir-me
      Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me
      Por não ter procedido bem.

Falhei a tudo, mas sem galhardias,
      Nada fui, nada ousei e nada fiz,
Nem colhi nas urtigas dos meus dias
      A flor de parecer feliz.

Mas fica sempre, porque o pobre é rico
      Em qualquer cousa, se procurar bem,
A grande indiferença com que fico.
      Escrevo-o para o lembrar bem.
Bien, hoy que estoy sólo y puedo ver
      Con el poder de ver del corazón
Cuanto no soy, cuanto no puedo ser,
      Cuanto si lo fuera, seré en vano,

Hoy, voy a confesar, quiero sentirme
      Definitivamente ser nadie,
Y de mí mismo, altivo, dimitirme
      Por no haber procedido bien.

Fallé a todo, pero sin gallardías,
      Nada fui, nada osé y nada hice,
Ni recogí en las ortigas de mis días
      La flor de parecer feliz.

Pero queda siempre, porque el pobre es rico
      En cualquier cosa, si se busca bien,
La gran indiferencia con que quedo.
      Lo escribo para recordarlo bien.
Poesias Inéditas
Fernando Pessoa

©2005-05-24 by Sebastián Santisi, all rights reserved.


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